
Revolução das Moving Lights nos Anos 90
Capítulo 4 por, Ronald de Braga Mello Filho (Ronny Mello)
Se a década de 1980 preparou o terreno rasgando o céu das arenas com os feixes verdes e precisos dos lasers, o início dos anos 1990 chegou para chacoalhar as estruturas do entretenimento.
O showbusiness brasileiro viveu uma verdadeira explosão na iluminação cênica. Foi o momento exato em que os palcos ganharam vida própria, movimento e cérebro.
Estávamos entrando, na marra e com muita raça, na era das *Moving Lights*. Deixamos para trás a era estática dos pesados refletores convencionais.
O comando agora era digital. Passamos a operar consoles computadorizados e refletores robotizados que respondiam milimetricamente a comandos de movimento (pan e tilt), trocas instantâneas de cores e projeções de desenhos.
A Versatilidade que Mudou o Jogo
O Fim da Tirania das Lâmpadas PAR 64, antes do surgimento dessa automação, a iluminação de um grande show dependia de estruturas formadas por centenas de lâmpadas PAR 64 de 1.000 watts cada.
O sistema era ineficiente, fixo e gerava um calor insuportável no palco, as cores, selecionadas antecipadamente e colocadas por gelatina, nome dado a película inserida na frente das PAR 64.
Tudo começou a mudar globalmente por causa de uma ousadia no mundo do rock. Em 1981, a empresa Showco desenvolveu um protótipo de refletor que se movimentava sozinho e mudava de cor por microprocessadores. O grupo britânico Genesis ficou tão impressionado com a novidade que investiu no projeto. Nascia ali a lendária marca "Vari-Lite", e o primeiro modelo , o "VL1" que estreou na turnê do álbum *Abacab* da banda.
Quando essa tecnologia desembarcou no Brasil, trouxe uma enorme vantagem operacional . Um único refletor robotizado conseguia fazer o papel de dezenas de lâmpadas PAR antigas.
O mesmo equipamento podia mudar de direção em frações de segundo, misturar milhares de cores, criar efeitos de estrobo e projetar imagens dinâmicas.
A consequência foi imediata: uma drástica e brutal redução na quantidade de lâmpadas PAR, mas grande virada para criatividade artística veio con a introdução dos gobos. Essas pequenas peças metálicas (ou discos de vidro), recortadas com precisão cirúrgica e colocadas cuidadosamente dentro de projetores móveis, permitiam filtrar a luz e projetar texturas, formas geométricas e efeitos abstratos no chão, cenários e diretamente no peito do público.
Nós técnicos, passamos a desenhar cenários virtuais, talentos brilhantes como o Chumbinho, iluminador oficial de Chitãozinho & Xororó que dominava essas novas ferramentas como ninguém, traduzindo cada batida de bateria em uma atmosfera visual inesquecível.
Nessa época os moving lights mais populares no Brasil eram os scanners, como os Intellabeam, Martins Roboscan ou os nacionais da própria Very Light, usavam um espelho móvel e gastavam poucos canais DMX por aparelho (geralmente entre 4 a 8 canais para controlar Pan, Tilt, Cor, Gobo e Shutter).
As mesas eram Very Light que controlava até 40 canais DMX diretos, e a Avolites Pearl, um monstro em 90 pois conseguia endereçar e organizar os 512 canais DMX.
No eixo São Paulo e Rio, o Legado de Manoel Poladian transformou São Paulo no epicentro técnico. Historicamente, o lendário produtor já havia desbravado as fronteiras anos antes, ao trazer ao país superestruturas tecnológicas internacionais para atender às exigências (os rigorosos riders técnicos) dos grandes astros mundiais através da Poladian Produções, responsável por turnês históricas.
Poladian foi o pioneiro em mostrar ao Brasil o peso da tecnologia cênica internacional e também em 86 a utilizar o laser show.
A grande novidade na década de 1990 foi a popularização dessa tecnologia para o artista da casa.
Foi ali que a gigante dinamarquesa "Martin Professional" fincou sua bandeira na capital paulista com os "Martin Roboscan" e seus potentes sistemas de raios coloridos.
Controlar essas feras nos sistemas Vari-Lite mudou a rotina nos bastidores : o antigo operador de luz, que puxava alavancas analógicas, teve que se transformar, do dia para a noite, em um programador.
O Investimento de duplas como Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo em megaestruturas forçou o mercado a se adaptar rapidamente. Em São Paulo, a "LPL Professional Lighting" se consolidou como uma das maiores colocando lancando os nomes Cesio Lima e Luiz Auricchio como os maiores do criação dos light designs até hoje.
Mas grande segredo dos bastidores daquela era foi o passo ousado dado pelos próprios artistas nacionais. Alem da LPL na iluminação e Gabi Son, eles entenderam que, para garantir a perfeição visual e a independência das limitações técnicas das locadoras regionais no interior do país, deveriam ter o próprio arsenal. O sertanejo assumia o papel de investidor tecnológico do país. De um lado, a LL sob a gestão firme e visionária de seu emblemático ex-empresário, Sílvio Luciano Alves, em conjunto do outro lado o empresário José Homero Béttio faziam o mesmo movimento audacioso, nas turnês de Chitãozinho e Xororó.
Assim foi montada uma verdadeira tropa de elite para desbravar as estradas do Brasil. Era o time de caras como Marcos Amorim na programação de luz, Cebola, Chumbinho, operando as mesas com precisão cirúrgica, o incansável, Dentinho, garantindo o funcionamento e a montagem pesada das estruturas e dos grids, Ronny Mello e Mauricio Gonsalves no Laser e os diretores de palco criando e administrando um caos organizado.
As empresas investiram em estruturas, carretas e toneladas de equipamentos de palco, som e luz.
Foi essa engrenagem — movida pelo faro empresarial de pioneiros como Poladian e LPL, pela sensibilidade artística de mestres da luz e pelo suor dos técnicos que carregavam as carretas — que equiparou os rodeios brasileiros aos maiores festivais de rock do mundo.
A música podia até ser sertaneja em sua essência, mas a engenharia tecnológica que a carregava nas costas já era de outro planeta.


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