Corria o ano de 1989. O Brasil fervilhava com o rock nacional, as rádios de São Paulo só davam RPM, Paralamas e Titãs, e eu, orgulhosamente encastelado no meu circuito da alta sociedade paulistana, achava que o mundo começava e terminava na MPB, Fabio Junior e nos lançamentos da Autolatina. Na LaserMedia, nossa praia era outra: alinhar tubos de gás Coherent para impressionar executivos no lançamento do Ford Verona e do VW Apollo no Clube Sírio-Libanês, ou celebrar os 100 anos da Scania em São Bernardo do Campo. O interior do Brasil? O sertanejo? Para a juventude da capital, aquilo era um universo paralelo que simplesmente não existia. Não estava em nossas mãos, não estava na nossa playlist.
Até que veio aquele fatídico dia de março.O Professor Saraiva, sócio na LM, me chamou com aquele tom de quem tinha fechado o negócio do século: "Ronny, fechamos a nova turnê do Chitãozinho & Xororó. Neste sábado, você vai fazer o primeiro show com o laser para eles conhecerem a parafernalha".
Eu olhei para ele, mandei um "Beleza, chefe", mas por dentro o meu cérebro de vinte e poucos anos processava um eco de pura ignorância: "Quem diabos são Chitãozinho e Xororó?". Os jovens de hoje, criados à base de algoritmo e Wi-Fi e praticamente todas as informações na plalma da mao, não fazem ideia do que era viver isolado em bolhas culturais. Se não tocava na rádio rock da capital e não aparecia na TV de domingo, para nós, era invisível, nao existia.
No sábado de manhã, lá fomos nós. Carregamos a nossa amada, guerreira e barulhenta Kombi 1.8 com os tubos de laser sensíveis, os espelhos e o computadores jurássicos rodando DOS. Rodamos cerca de 110 quilômetros para o interior. Quando a Kombi finalmente estacionou, o meu queixo caiu: aportamos no meio de um estádio de futebol profissional imenso, totalmente fechado, com arquibancadas imponentes de todos os lados e um palco monumental erguido em uma das cabeceiras.
Passamos umas duas horas montando o equipamento sob o sol escaldante. Como o laser dependia da escuridão e do alinhamento a olho nu, sentamos na beira do palco para esperar o sol se pôr e prosear. Olhei bem sério para o Gerson, meu parceiro de estrada, e disparei do alto da minha soberba urbana: "Cara... que loucura. Esse lugar é grande demais. Isso aqui vai ficar completamente vazio. Se fosse um show do RPM, tudo bem, lotava. Mas para essa dupla? Vai dar ninguém". Gerson concordou, e continuamos ali, isolados no nosso mundinho técnico, trancados dentro das quatro paredes daquele estádio. Hoje eu rio sozinho lembrando disso, porque enquanto a gente filosofava na House Mix, lá fora o asfalto já estava derretendo com o peso de pelo menos 10 mil pessoas impacientes.
A noite caiu, afinamos o raio verde, testamos a potência e tudo ficou pronto. Eu só esperava ver aparecerem uns gatos pingados para eu disparar os efeitos no DOS, recolher os cabos e voltar para São Paulo.
Aí abriram os portões.
O que aconteceu em seguida parecia um filme de ficção científica. O público começou a entrar. Primeiro em fluxo constante, depois virou uma enxurrada. Não parava de chegar gente de todos os lados. E não eram "gatos pingados": eram milhares de pessoas felizes, empolgadas, vestidas para o espetáculo. Em menos de trinta minutos, o gramado virou um formigueiro humano tão absurdo que bateu o desespero técnico. Tivemos que cercar às pressas a nossa área e subir correndo no andaime, porque o povo simplesmente engoliu o espaço ao redor do laser.
Quando as luzes se apagaram e a dupla pisou no palco, o estádio inteiro veio abaixo. A massa cantava cada verso, cada introdução, com uma energia que eu nunca tinha visto nem nos maiores shows de rock da capital.
Ali, naquela noite de março de 1989, eu quebrei a cara da forma mais bonita possível. Fui batizado na poeira e no brilho da arena. Entrei para o mundo sertanejo pela porta da frente e, de lá, não saí pelos próximos 20 anos.
Sobre o autor: Ronald Braga Mello Filho (Ronny Mello) . Conta com uma sólida trajetória no mercado do entretenimento, atuou como técnico operador de Laser Show pela LaserMedia Brasil (1987-1993), onde realizou espetáculos visuais para grandes lendas da música, incluindo Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Edson & Hudson, entre outros. Posteriormente, trabalhou na área comercial da Ralf Produções para a icônica dupla Chrystian & Ralf (1994-1999) e consolidou sua carreira como empresário entre 2000 e 2013. Hoje, dedica-se à escrita criativa e crônicas diárias. Todos os direitos reservados.



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