Ronny Mello

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Curitiba, Paraná , Brazil
🎚️ Por Ronny Mello Operador de laser e iluminação com mais de 20 anos de estrada no show business brasileiro. Aqui, eu abro o meu bloco de notas para contar a história real, técnica e bem-humorada dos bastidores das grandes arenas nos anos 80 a 2013.O show antes do show.

"CRONICA" - Naquela noite de março de 1989, eu quebrei a cara da forma mais bonita possível. Fui batizado na poeira e no brilho da arena.


 Corria o ano de 1989. O Brasil fervilhava com o rock nacional, as rádios de São Paulo só davam RPM, Paralamas e Titãs, e eu, orgulhosamente encastelado no meu circuito da alta sociedade paulistana, achava que o mundo começava e terminava na MPB, Fabio Junior e nos lançamentos da Autolatina. Na LaserMedia, nossa praia era outra: alinhar tubos de gás Coherent para impressionar executivos no lançamento do Ford Verona e do VW Apollo no Clube Sírio-Libanês, ou celebrar os 100 anos da Scania em São Bernardo do Campo. O interior do Brasil? O sertanejo? Para a juventude da capital, aquilo era um universo paralelo que simplesmente não existia. Não estava em nossas mãos, não estava na nossa playlist.

Até que veio aquele fatídico dia de março.
O Professor Saraiva,  sócio na LM, me chamou com aquele tom de quem tinha fechado o negócio do século: "Ronny, fechamos a nova turnê do Chitãozinho & Xororó. Neste sábado, você vai fazer o primeiro show com o laser para eles conhecerem a parafernalha".
Eu olhei para ele, mandei um "Beleza, chefe", mas por dentro o meu cérebro de vinte e poucos anos processava um eco de pura ignorância: "Quem diabos são Chitãozinho e Xororó?". Os jovens de hoje, criados à base de algoritmo e Wi-Fi e praticamente todas as informações na plalma da mao, não fazem ideia do que era viver isolado em bolhas culturais. Se não tocava na rádio rock da capital e não aparecia na TV de domingo, para nós, era invisível, nao existia.
No sábado de manhã, lá fomos nós. Carregamos a nossa amada, guerreira e barulhenta Kombi 1.8 com os tubos de laser sensíveis, os espelhos e o computadores jurássicos rodando DOS. Rodamos cerca de 110 quilômetros para o interior. Quando a Kombi finalmente estacionou, o meu queixo caiu: aportamos no meio de um estádio de futebol profissional imenso, totalmente fechado, com arquibancadas imponentes de todos os lados e um palco monumental erguido em uma das cabeceiras.
Passamos umas duas horas montando o equipamento sob o sol escaldante. Como o laser dependia da escuridão e do alinhamento a olho nu, sentamos na beira do palco para esperar o sol se pôr e prosear. Olhei bem sério para o Gerson, meu parceiro de estrada, e disparei do alto da minha soberba urbana: "Cara... que loucura. Esse lugar é grande demais. Isso aqui vai ficar completamente vazio. Se fosse um show do RPM, tudo bem, lotava. Mas para essa dupla? Vai dar ninguém". Gerson concordou, e continuamos ali, isolados no nosso mundinho técnico, trancados dentro das quatro paredes daquele estádio. Hoje eu rio sozinho lembrando disso, porque enquanto a gente filosofava na House Mix, lá fora o asfalto já estava derretendo com o peso de pelo menos 10 mil pessoas impacientes.
A noite caiu, afinamos o raio verde, testamos a potência e tudo ficou pronto. Eu só esperava ver aparecerem uns gatos pingados para eu disparar os efeitos no DOS, recolher os cabos e voltar para São Paulo.
Aí abriram os portões.
O que aconteceu em seguida parecia um filme de ficção científica. O público começou a entrar. Primeiro em fluxo constante, depois virou uma enxurrada. Não parava de chegar gente de todos os lados. E não eram "gatos pingados": eram milhares de pessoas felizes, empolgadas, vestidas para o espetáculo. Em menos de trinta minutos, o gramado virou um formigueiro humano tão absurdo que bateu o desespero técnico. Tivemos que cercar às pressas a nossa área e subir correndo no andaime, porque o povo simplesmente engoliu o espaço ao redor do laser.
Quando as luzes se apagaram e a dupla pisou no palco, o estádio inteiro veio abaixo. A massa cantava cada verso, cada introdução, com uma energia que eu nunca tinha visto nem nos maiores shows de rock da capital. 
Do alto do meu andaime, vendo o céu do interior ser cortado pelo nosso laser verde enquanto milhares de vozes ecoavam no peito, engoli cada palavra preconceituosa que tinha dito à tarde.
O arrependimento da minha ignorância virou um respeito profundo.
Ali, naquela noite de março de 1989, eu quebrei a cara da forma mais bonita possível. Fui batizado na poeira e no brilho da arena. Entrei para o mundo sertanejo pela porta da frente e, de lá, não saí pelos próximos 20 anos.





Sobre o autor: Ronald Braga Mello Filho (Ronny Mello) . Conta com uma sólida trajetória no mercado do entretenimento, atuou como técnico operador de Laser Show pela LaserMedia Brasil (1987-1993), onde realizou espetáculos visuais para grandes lendas da música, incluindo Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Edson & Hudson, entre outros. Posteriormente, trabalhou na área comercial da Ralf Produções para a icônica dupla Chrystian & Ralf (1994-1999) e consolidou sua carreira como empresário entre 2000 e 2013. Hoje, dedica-se à escrita criativa e crônicas diárias. Todos os direitos reservados.

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